sábado, 29 de novembro de 2014

Revigorada, Mulher-Maravilha de Azzarello e Chiang chega ao fim

Wonder Woman #35, The New 52

E finalmente a aclamada fase de Brian Azzarello e Cliff Chiang a frente do título da Mulher-Maravilha chegou ao fim. Foram 35 edições que revigoraram o prestígio que a super-heroína há muito tempo não gozava no meio dos quadrinhos. A revitalização de todos os personagens e títulos da DC no reboot de 2011 trouxe muita apreensão aos fãs, que presenciavam a milhonésima estratégia de marketing por parte da editora com o fim de alavancar as vendas. A apreensão de muitos se mostrou justificada em quase todos os títulos. Mas Mulher-Maravilha ganhou vida nova.

A frente da revista desde o início do reboot, a dupla Azzarello-Chiang contou uma nova origem para a heroína, deixando de lado a sua clássica gênese, bem como aquela introduzida por George Pérez após a Crise das Infinitas Terras, explorando mais o lado mitológico da personagem. Agora, ela não é mais a estátua que ganhou vida, nem a reincarnação de todo mal que os homens fizeram às mulheres, mas sim filha de Zeus e Hipólita. Alçada ao patamar de semi-deusa, Diana se viu também, ao longo dessa nova fase, transformada em deusa da guerra.

Essa mudança de paradigmas não poderia ter sido mais revigorante. A série ganhou em profundidade e se diferenciou de seus pares da editora ao apresentar uma trama muito mais coesa e grandiosa. Azzarello teve liberdade de contar sua história com calma e praticamente abandonou o recurso de arcos fechados. A história toda girou em torno da crise que se instalou no Olimpo com o sumiço de Zeus, dando margem para que o sádico primogênito reivindicasse o trono.

É uma pena que a atual fase tenha se encerrado, apesar de que nas últimas edições, a série tenha perdido um pouco do velho ritmo. O final foi apressado e introduziu questões que não foram satisfatoriamente desenvolvidas, como a questão do minotauro e da aparição de Ártemis. Azarello apara todas as pontas soltas, mas o faz com certa pressa.

No início, Azzarello havia dito que ficaria a frente de Mulher-Maravilha apenas por poucos meses, suficiente para catapultar a empreitada dos Novos 52. Mas o tempo mostrou que o projeto era grandioso demais para ser deixado incompleto, e ele conseguiu fazer isso com autonomia (o título não era alinhado a cronologia padrão da DC), fazendo com que a sua passagem já seja reconhecida como a que apresentou a "Mulher Maravilha definitiva".

Mulher-Maravilha #35
Wonder-Woman #35
**** 8,5
DC | outubro de 2014
Roteiro: Brian Azzarello
Arte: Cliff Chiang e Goran Sudzuka

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"Quadrinhos" é obra diferenciada sobre a história contemporânea das HQ's


Lançado sem muita badalação no meio desse ano pela Martins Fontes, Quadrinhos - História Moderna de Uma Arte Global foi uma grata surpresa. Trata-se de um denso estudo sobre as últimas quatro décadas de produção de quadrinhos pelo mundo. A façanha se deu graças ao árduo trabalho de pesquisa dos autores Dan Mazur e Alexander Danner, que demonstraram além de muito apuro técnico e bibliográfico, um profundo conhecimento da arte sequencial.

O grande diferencial desse livro em relação aos demais livros teóricos é o seu enfoque para a arte em si, explorando as diversas tendências e estilos de composição de página, leiautes e traços. É nesse ponto em que se encontra a maior virtude da obra, pois ele explana um quadro evolutivo muito interessante sobre a evolução da arte, desde o underground até as webcomics, nunca deixando de contextualizar todas as sua informações.

Outro diferencial está em sua abrangência. Os autores se ativeram mais para a produção de países como EUA, Japão, França e Itália. Seu estudo sobre a produção japonesa durante a década de 60 e 70 talvez seja desconhecida por muitos, em razão do enorme vazio editorial por aqui de obras teóricas sobre quadrinhos japoneses. Informações sobre quadrinhos americanos já é quase de conhecimento comum de qualquer leitor de quadrinhos atualmente. Mas a dupla foi além desse conhecimento vulgar e procuraram abordar os quadrinhos sob o prisma artístico, sempre explicitando as concepções artísticas vigorantes em cada época. Para isso, o relato se apoia em centenas de imagens e ilustrações  das obras mencionadas ao longo do livro, o que incrementou a experiência de leitura.

Embora seja uma obra grande, de 322 páginas, em muitas passagens o livro peca por ser demasiadamente superficial ao se limitar em diversas passagens a tão só enumerar obras e autores, sem apresentar maiores referência as leitor não iniciado. Isso muitas vezes deixou a leitura enfadonha. Talvez tenha sido o preço pago pela pretensão de abarcar a produção de diversos países por um longo período de tempo.

Não se pode deixar de mencionar o ótimo trabalho que a Martins Fontes fez. Além de ter sido lançado apenas poucos meses depois que saiu nos Estados Unidos, a versão brasileira possui um ótimo acabamento e está bem traduzido, o que se percebe quando se vê opções acertadas como a de deixar de traduzir termos específicos em que não há uma tradução adequada para o português, como auteurs (ao se referir a artistas criativos) e ligne claire (que remete a tendência artística dos autores europeus durante a década de 50 e 60). 

Quadrinhos - História Moderna de Uma Arte Global
Comics - A Global History, 1968 to the Present
***** 9,0
WMF Martins Fontes | 2014
Autores: Dan Mazur e Alexander Danner

sábado, 22 de novembro de 2014

Metalinguístico, Planetary expande as barreiras dos quadrinhos convencionais

Planetary Volume 1, Panini, de Warren Ellis e John Cassaday

Não é muito comum encontrar nos quadrinhos mainstream obras tão fortemente calcadas na linguagem metalinguística quanto Planetary. O quadrinho de Warren Ellis e John Cassaday não optaram pelo caminho que Grant Morrison seguiu em Homem-Animal e em Patrulha do Destino. Eles expandiram o universo referencial e abordaram a cultura pop como um todo, como se toda a obra ficcional já criada habitassem o mesmo universo. É nessa realidade que a organização Planetary (composta por Elijah Snow, Jaquita Wagner, O Baterista e pelo misteriosos Quarto Homem) atua.

Quando li a recente versão da série que a Panini lançou, fiz questão de não ler nenhuma resenha a respeito. Quis entrar nesse mundo com o mínimo de coordenadas possíveis. Buscava a genuína experiência do leitor quando do lançamento da obra. Claro, que não tem como fugir do prévio conhecimento da relevância que a obra alcançou e de sua qualidade. Mas gostaria de me influenciar no mínimo com tais julgamentos e ter a minha própria ideia sobre a obra, evitando ao máximo conceitos alheios.

O que eu vi nos primeiros seis números da obra, mais um pequeno especial lançado antes, foi de uma obra difícil, mas que respeita a inteligência do leitor. O tom impenetrável do começo, logo foi se amenizando, e logo podemos compreender melhor sobre a missão da misteriosa organização Planetary. Só que nada é entregue facilmente. A obra não padece do defeito muito comum hoje em dia de deixar tudo explicadinho para o leitor. Ele deve ralar um pouco se quiser ter a noção completa da trama.

Logicamente que, bem ao estilo de Warren Ellis, a trama maior não dá pra sacar nesse primeiro volume. A obra é composta de histórias isoladas em cada número, mas que juntas compõe um quadro único, que vai sendo pintado paulatinamente. 

Nesse primeiro volume, os arqueólogos do impossível investigam o alvorecer e fim dos heróis da Era de Ouro (é clara a referência ao Sombra, Tarzan e Doc Savage), a morada dos famosos monstros japoneses, a história de vingança típica dos filmes de ação asiáticos e uma versão alternativa da corrida espacial, que deu origem a supervilões livremente inspirados no Quarteto Fantástico. Não somente a trama é referencial, como John Cassaday faz questão de adaptar sua narrativa gráfica às exigências do gênero explorado, demonstrando toda a sua versatilidade.

Planetary: Vol. 1 - Pelo Mundo Todo e Outras Histórias
Planetary #1-6
**** 8,5
Wildstorm | 1999
Panini | 2013
Roteiro: Warren Ellis
Arte: John Cassaday
Arte-final: Laura Depuy

sábado, 15 de novembro de 2014

Em nova inestida nos quadrinhos, Tomb Raider não empolga em seu primeiro arco

Lara Croft, Tomb Raider, Vol. 1

Acabou de sair no EUA, o primeiro encadernado da nova HQ de Tomb Raider. Obra diretamente derivada do reinício da franquia nos games em 2013, ela incorporou a renovação visual empreendida na ocasião. Lara Croft já não é mais aquela musa de seus primeiros jogos nos anos 2000. Agora, ela está rejuvenescida e menos interessada em explorar seu sexy apeal do que suas habilidades com o machado e artefatos históricos.

Depois dos eventos mostrados no game homônimo de 2013 (desenvolvido pela Cystal Dynamics e Eidos), a HQ começa com Lara Croft tendo que lidar com a perseguição da seita que pensou ter destruído na ilha de Yumatai, local onde aconteceu os acontecimentos do jogo. Eu não o joguei para saber até onde terminam as referências com o games, mas a HQ demonstra nos seus primeiros números bastante desenvoltura e autonomia, uma vez que não é preciso ter jogado o jogo para compreender a trama. Gail Simone se preocupou em agradar tanto fãs da série, quanto leitores não-iniciados.

Simone é bastante experiente em lidar com personagens femininas. É só conferir seu longo trabalho com a Mulher-Maravilha (2008-2010) Batgirl dos Novos 52 (2011-2014) e Red Sonja (2013). De fato, sua versão de Lara Croft agradou e se adequou perfeitamente ao seu novo background. Ocorre que a história vai se perdendo ao longo do primeiro arco e, no final, está irrecuperável. 

A necessidade de explanar os antecedentes e desenvolver a nova trama ao longo de apenas seis edições comprometeu muito o resultado final (novamente a controversa demanda mercadológica de contar histórias fechadas em arcos). A arte, a cargo de Nicholas Daniel Selma, é quase primária e não possui apelo artístico algum, salvo as capas das edições. Por isso tudo que a HQ é somente recomendada aos fãs da série, sobretudo aqueles que desejam conferir os desdobramentos dos acontecimentos mostrados no game.

Tomb Raider: Vol. 1 - Season of the Witch
Tomb Raider #1-6
*** 5,0
Dark Horse | novembro de 2014
Roteiro: Gail Simone
Arte: Nicholas Daniel Selma

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A família de Will Eisner pode ser vista como metáfora da decadência moral da sociedade



"Famílias são fisicamente indistinguíveis umas das outras. Elas não usam insígnias. Elas são, afinal de contas, unidades tribais cujos membros estão lá graças a um evento biológico. E elas são unidas por um núcleo magnético que, ás vezes, não parece ser amor ou lealdade." Anônimo

É com esse pensamento pessimista sobre a família que Will Eisner inicia uma das últimas obra a chegar do Brasil. Lançada em 1998 nos EUA, Assunto de Família acompanha os preparativos de uma família desunida para a celebração dos 90 anos do seu patriarca. Mas as intenções de seus familiares não são tão nobres quanto o gesto sugere.

Logo no início fica claro que se trata de uma família esfacelada, mais interessada na herança do velho, não medindo esforços para cair nas graças dele. Os filhos dele são inimigos mútuos, cada um está mais interessado em inferiorizar o outro e levar vantagem em seu quinhão na herança. Se algumas família se unem por amor ou lealdade (como a frase da obra sugere), esta se reuniu buscando se resolverem às custas do pai e dos irmãos.

Juntos, o pior de cada um deles vem a tona, revelando um passado de intrigas, rixas, traição, ganância, incesto e coisas ainda piores. Eisner cria aqui um cenário familiar decadente, pessimista e não poupa ao pintar a sua concepção de que é capaz uma família desestruturada. Não deixa de ser espelho da decadência moral da sociedade como um todo. Definitivamente, a trama passa longe do tom redentor presente em vários outros trabalhos de Eisner.

Em si, Assunto de Família apresentada um história curta, mas não por isso ligeira nem rasa em seu conteúdo. Eisner foi um gênio no domínio da narrativa gráfica, não descuidando em nenhum momento de sua característica mais marcante. Exaltar a qualidade das obras de Eisner chega a ser redundante, por isso não vou aqui tentar convencer o leitor da importância da obra ou recomendar a leitura. Tudo isso está subentendido quando se fala em Will Eisner. Conhecer sua obra é tarefa obrigatória para todo fã de quadrinhos.

Assunto de Família
A Family Matter (1998)
**** 8,0
Devir | novembro de 2009
Roteiro e arte: Will Eisner

sábado, 8 de novembro de 2014

Quarto volume do Demolidor de Waid mantém o ritmo acelerado e coesão da linha narrativa

Mark Waid, Demolidor volume 4, Panini

Enquanto a Panini continua a publicação da atual fase de Mark Waid a frente do Demolidor com o lançamento do seu volume 5, eu aproveito para colocar a leitura da série em dia e encaro o volume 4. Essa é uma das poucas publicações recentes que eu faço questão de acompanhar. Waid é um grande roteirista de histórias de super-heróis e quase sempre cria boas tramas, geralmente encontrando o equilíbrio entre respeitar o background do personagem e ousar em novas tramas, fugindo do convencional.

É precisamente o que acontece nas edições de encadernado, em que há aparição inédita do vilão Coiote. Waid arranjou uma maneira muito criativa de apresentar esse personagem, que é de sua autoria. Uma vez que os leitores não sabem nada a seu respeito, ele se aproveita desse desconhecimento para chocar, introduzindo-o de um modo bastante ousado e criativo. 

Outra coisa que diferencia o Demolidor de Waid é de não se ater muito a estrutura rígida de tramas em arcos de 5 ou 6 edições. Desde a primeira edição a série vem contando uma história coesa, que continuamente se desenvolve, mas que nem por isso fecha as portas para novos leitores. Isso não é pouca coisa. Não é simples que algum roteirista de quadrinhos mainstream não descambe para a excessiva remissão de fatos passados ou crie arcos independentes entre si, algo comum em autores iniciantes.

Nos desenhos, Chris Samnee substituiu de vez Paolo Rivera (que cada vez mais vinha se afastando da arte interna), que passou a assinar somente a arte das capas. Mas Samnee não fez feito. Em uma arte mais escura que seu antecessor, ele não chega a ousar no layout como David Aja em Gavião Arqueiro, mas em compensação ele demonstra ter o completo domínio da narrativa visual, atributo essencial num quadrinho de ação.

Quanto ao trabalho da Panini, não há muito o que se comentar além da preocupação em economizar ao máximo o número de páginas. Em razão disso, algumas capas, quando não completamente suprimidas, são dispostas em formato reduzido para caber mais de uma na página. Não há folhas de rosto, nem textos remissivos. Enfim, pelo menos tá sendo publicado com regularidade. Feito elogiável.

Demolidor - Volume 4
Daredevil #19-25
**** 8,0
Panini | abril de 2014
Roteiro: Mark Waid
Arte: Chris Samnee
Arte-final: Tom Palmer
Cores: Javier Rodriguez

sábado, 1 de novembro de 2014

"Sin City - A Dama Fatal" demonstra o hoje raro virtuosismo de Frank Miller nas HQ's

Frank Miller, Sin City - A Dama Fatal, Devir

Sin City pode ser considerada um dos últimos respiros criativos de uma das mais prolíficas carreiras nos quadrinhos. Ouso dizer que depois de Sin City Frank Miller não foi mais o mesmo. Vieram em seguida obras que nem de perto fizeram jus a sua genialidade, como Batman: O Cavaleiro das Trevas 2 (2001), Grandes Astros Batman & Robin (2005) e Holly Terror (2011). Mas enquanto criava Sin City, ele ainda dava um show.

Em A Dama Fatal, bem como nos demais volumes da série, o seu desenho já assumia algumas característica que viriam a ser constantes em sua obra, como a ausência de plano de fundo, consistente na minimalização do cenário. Seus esforços passaram a ser no primeiro plano, explorando os jogos de sombra e luz. Do contraste entre o preto e branco se faz a arte, e esse recurso perfeitamente se adaptou ao ambiente que Frank Miller quis imprimir em seu roteiro.

Diferentemente da profusão de quadros que e verborragia presentes em O Cavaleiro das Trevas, Miller optou aqui por um layout mais enxuto, composto mais por painéis amplos, de página inteira. Por isso, a ambientação da história em muito se deve a narração em primeira pessoa de Dwight, responsável por imprimir uma atmosfera mais intimista. 

Ocorre que depois de sua fase em Sin City durante o início dos anos 90, Frank Miller nunca mais recuperou a sua acuidade artística, aquela que ele mostrou em obras como Ronin e Batman - O Cavaleiro das Trevas. O seu traço irregular e borrado, que tinha o seu lugar em Sin City, passou a ser a regra desde então, só que de uma forma piorada. A demonstração mais recente desse declínio artístico pode ser conferido no preview do seu último projeto, Xerxes, que saiu no Brasil na Dark Horse Apresenta #1 (da HQM Editora), e que está paralisada devido ao seus compromissos na produção do filme Sin City 2, baseado justamente em A Dama Fatal. Mais preocupado em trabalhar no cinema, talvez mais interessado no maior retorno financeiro do trabalho (nada contra), Miller deixou os quadrinhos de lado.

Ainda não conferi a recém-lançada adaptação cinematográfica da obra, mas A Dama Fatal fornece um material incrível, composto por um roteiro bem desenvolvido e cheio de cenas de ação, bem ao gosto do público hollywoodiano. Para se ter uma ideia, há um sem número de passagens na obra com aquela típica cena de vidro se estraçalhando contra um corpo alvejado de balas. Inspiração cinematográfica ele sempre teve.

Sin City - A Dama Fatal
Sin City #1-6 - A Dame for Kill
**** 8,5
Devir | março de 2013 (2ª edição)
Dark Horse | novembro de 1993 a maio de 1994
Roteiro e arte: Frank Miller